terça-feira, 28 de julho de 2015

A História de Elisa

Fui mãe muito jovem de dois filhos lindos, Amanda e Gabriel, frutos do meu primeiro casamento. Hoje a Amanda já está com 22 anos, concluindo o curso de Fisioterapia. Gabriel, com 19 anos, cursando o terceiro semestre do curso de Administração. Extremamente amados desde sempre, mas ambos não foram planejados.
Em 2006, conheci o grande amor da minha vida e decididamente tive muita vontade de ser mãe novamente. Dos 36 aos 38 anos ficamos amadurecendo a idéia. Meu marido ainda não tinha filhos e apesar de ser um verdadeiro pai para Amanda e Gabriel, queria muito ter um que fosse só NOSSO.
O medo que desse algo “errado” me assombrava e lia muito sobre os riscos de uma gravidez pós 35 anos. Confesso que a Síndrome de Down (SD) sempre foi meu maior medo, inclusive nas minhas gestações anteriores quando eu era muito jovem. (ignorância e preconceito). Orava diariamente e pedia ao Senhor: Se for para eu gerar um filho saudável e perfeito, que venha para unir ainda mais a nossa família, que seja feita a Vossa vontade.
Contrariando todas as estatísticas, aos 38 anos e vinte anos tomando remédios contraceptivos, em apenas dois meses de tentativas, a Elisa já estava à caminho. A gravidez foi perfeita do início ao fim.
Lembro nitidamente de como fiquei nervosa antes do exame de Translucência Nucal. E a médica com largo sorriso no rosto me disse: “ TN 1,1, presença de osso nasal. Esse exame é um divisor de águas para as síndromes”. Saímos do consultório, radiantes. O Senhor havia nos abençoado.
Realizei todos os exames possíveis e sugeridos pelo médico: Morfológicos 1º e 2º trimestres, 3D, Ecocardiograma fetal, todos normais. Como eu queria fazer laqueadura, optamos pela cesárea; marcamos para o dia 18/11/2013, segunda-feira, pois o papai poderia ficar toda a semana conosco. Mas a nossa pitoca resolveu se antecipar. Na noite do dia 14/11, véspera de feriado, comecei sentir contrações mais freqüentes. Na manhã do dia 15/11/2013, com 38 semanas e 3 dias de gestação, ligamos para o obstetra para relatar os sintomas e ele nos disse: “Encontro vocês na maternidade em 30 minutos, leva a mala da Elisa”.
Quanta felicidade! O fruto do nosso AMOR estava chegando.
O parto foi angustiante. Dona Elisa já estava encaixada para parto normal e o médico teve que fazer uma manobra para que ela nascesse de cesariana. Nem vou comentar aqui, tudo o que poderia ter acontecido. Minha filha já era uma guerreira.
Elisa nasceu roxinha, demorou a chorar. O Apgar foi 8 logo após o parto e em 5 minutos passou para 10. Uma gorducha linda, 3,735 Kg e 49 cm. Percebi que ela era “diferente”, na nossa primeira troca de olhares. Mesmo o papai tenho olhinhos puxados e pequenos, Elisa não se parecia com os irmãos.
Durante o tempo que estivemos na sala de recuperação, não parava de olhar para ela e para a outra bebê que estava lá. Ela sugava o peito da mãe com vontade, enquanto que Elisa dormia no aconchego dos meus braços. Mal sabia eu, que o pai já tinha ouvido do médico , a suspeita da SD. Eles preferiram não me contar naquele dia.
A noite na maternidade foi angustiante, indagava meu marido: Tu não acha que ela tem os olhos, meio puxados? O percebia nervoso, mas ele sempre me desconversava. Todas as pessoas que me visitaram, nenhuma percebeu nada. Na tarde do outro dia, o pediatra finalmente foi no quarto. Realizou os testes de rotina na Elisa e ela fez todos direitinhos. E eu, com uma angústia danada, perguntei: -- Está tudo bem doutor? Antes de o médico me responder, meu marido me olha e diz:
- Preta, pergunta para ele o que realmente tu queres perguntar”. Não sei descrever com precisão o que senti naquele exato momento. Não queria acreditar que a minha suspeita era real. O médico me olhou e disse: ­­­­­­­­ O que tu queres saber? Eu falei: - Achei ela com os olhinhos meio puxados, característicos da síndrome. E ele: - O que mais? Eu tremendo, falei: - Percebi ela mais molinha, quietinha. (Ainda não sabia o que era hipotonia). Ele totalmente despreparado me disse: -- Mãe, tudo o que você observou, nós também percebemos. Mas ela não tem todas as características. Antigamente dávamos o diagnóstico a olho nu. Atualmente, somente depois do exame de cariótipo. Realmente não posso te confirmar se ela tem SD. Hoje penso que ele já tinha a certeza do diagnóstico, apenas não teve coragem de me contar, pensando ser esta notícia a pior possível.
O médico saiu do quarto e já desabei instantaneamente. Nos abraçamos e choramos sem parar. Recebemos alta do hospital no mesmo dia, mesmo sendo cesariana.
Não queria ver ninguém, não queria conversar com ninguém. Sensação indescritível do chão se abrir e um prédio despencar sobre a minha cabeça. Perdi 12 kg em 15 dias. Só sabia chorar e imaginar um futuro de preconceitos pela frente. Recebi apoio incondicional do meu marido, dos meus filhos, da minha família em geral e de alguns amigos.
Foi longa e angustiante a espera do resultado do exame de cariótipo. Confesso que no fundo tinha uma esperança de dar negativo, pois Elisa começou a se desenvolver muito bem.
Mesmo vivendo meu luto intensamente nos primeiros meses, não desisti de amamentar e com muita persistência Elisa teve uma sucção perfeita. Antes mesmo de receber o resultado do cariótipo que levou mais de dois meses, mergulhei e me encantei pelo Universo Down e iniciei as estimulações na Elisa. Não tenho vergonha de dizer que era uma ignorante no assunto, mesmo sendo psicopedagoga. Por isso, quando veio o resultado, não tive mais o choque do resultado da Trissomia do 21. Já estava totalmente apaixonada por ela e convicta de que DEUS nunca me abandonou. Nos mandou SIM, uma filha perfeita e saudável, que veio para colorir meus dias, me transformar e me fazer uma pessoa melhor.
A Luciana controladora de tudo, imediatista e perfeccionista, não existe mais. Junto com a minha doce ELISA, nasceu uma Luciana que está descobrindo a felicidade nas pequenas conquistas do dia-a-dia. Uma Luciana que está sabendo dar valor, ao que realmente tem valor. Uma eterna aprendiz, que levou quase 40 anos para aprender que os desígnios de Deus, jamais são negativas de Deus e que TUDO tem uma razão de SER.
Ainda é extremamente difícil algumas questões com o futuro. Afinal, são apenas 17 meses de um giro de 360 graus na minha vida. Mas estou tentando, repito, TENTANDO viver um dia de cada vez.
Se me perguntarem, o que faria se eu pudesse voltar no tempo. Responderia: faria TUDO novamente para ter a minha ELISA igualzinha, do jeitinho que ela é.
Elisa, meu doce mais doce. Te amo com todas as minhas forças!




Luciana Gontan Albiero nos emocionou com a história dela, quer contar a sua também?





10 comentários:

  1. Luciana, sua história é incrivelmente muito parecida com a minha, no que diz respeito a partir do nascimento da Eliza.
    Minha Biazinha está com quase 11 meses. Nasceu de 38 semanas e 2 dias, de um parto cesariana de urgência onde ela poderia ter chegado a sofrimento fetal.
    Após o nascimento ela ficou alguns minutos no meu colo e o papai tb foi o primeiro a saber.
    No outro dia, ao perguntar para o pediatra do hospital sobre a sindrome, ele me respondeu: "Acho que tem que fazer o exame". Mas tb tenho certeza que ele já sabia, apenas estava me preparando...
    Assim como vc, caimos num luto imenso. O cariótipo ficou pronto no mesmo dia que ela completou seu primeiro mês. Incrivelmente nesse dia não mais chorei, já havia um amor incondicional muito forte. Neste dia, eu e meu marido fomos conhecer a APAE aqui de Santos. E em nenhum momento a síndrome abalou nosso relacionamento, ao contrário, ficamos mais unidos, choramos e sorrimos juntos.
    Tive um apoio imenso da família e dos amigos. Quebrei meus "pré-conceitos".
    Sou imensamente mais feliz hoje e, em muitos momentos não vejo a SD da minha filha mas, claro, nem por isso deixamos de estimulá-la frequentemente.
    Obrigada por compartilhar a sua história e tenho certeza que a sua pequena Eliza irá brilhar tanto quando a minha Beatriz! Beijos!
    (Soraia Menezes / Santos-SP)

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    1. Com certeza Soraia. Elas vieram para resignificar nossas vidas. Se quiser adicionar, terei imenso prazer em continuar mantendo contato. Beijos nossos.

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    2. Com certeza Soraia. Elas vieram para resignificar nossas vidas. Se quiser adicionar, terei imenso prazer em continuar mantendo contato. Beijos nossos.

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  2. Que lindo Lu! Obrigada por nos proporcionar momentos de alegria com cada conquista da nossa Elisa. Um beijo. Amanda, a Comassetto.

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    1. Um beijo Amanda e obrigado pelo carinho. A presença dos amigos foi e é fundamental para mim e para o desenvolvimento da nossa Elisa.

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  3. Linda história de amor,eu estou conhecendo o Gabriel,ele nasceu faz 2 dias e o pediatra logo que ele saiu da barriguinha da mamãe me chamou e disse que ele tinha as características de down, eu a amo ,só um pouco confuso,mas a amo....

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  4. Tua história é linda e só pessoas abençoadas por Deus para ter este presente a Elisa é linda e não poderia ter mãe e pai melhores e especias como vcs um beijo no coração de todos vcs

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