sábado, 20 de julho de 2013

A Arte da Linguagem

Quando Murillo me convidou a escrever para o blog e me disse que não precisava ser nada necessariamente científico, eu me questionava sobre por onde eu deveria começar a escrever e muitas idéias se imbricavam em um tema que, por coincidência - ou não - me acompanhou durante 03 anos de pesquisa e trabalho na universidade: a família. 
Esclareço que trago a família enquanto o primeiro grupo social da criança e a primeira das redes que interferem na constituição da linguagem e conseqüentemente na socialização do sujeito; e a linguagem enquanto um sistema simbólico e de interlocução, que é construída e estruturada a partir da interação que estabelece com seus pares e nos contextos dos quais ela faz parte. Sendo assim, sair do silêncio à palavra, e tornar-se um sujeito falante, é condiçãa relação com outro, aquele que interpreta e atribui sentido ao comportamento da criança.
No caso de Alynne e Murillo, falo de pais que lutam para não deixar a presença da deficiência marcar o trajeto de Guilherme e nem o de sua família. Nessa relação eles doam amor e doam sentidosNessa família, a  presença de  Bernardo só reforça importância do outro no processo de estruturação do sujeito falante  as trocas são mais ricas e a relação horizontal permite que os embates aconteçae que Guilherme assuma uma posição, atue e conquiste seu espaço, demarque seu território. 
No meu consultório me aproximo dele, do que ele trás e do que ele permite - sem ultrapassar seu limite e a sua singularidade. A fala de Gui vai sendo ensaiada, começa a surgir e se concretiza medida que ele vai sendo ouvido  e aí a presença do outro é trazida novamente  só existe escuta (e fala) se existir a presença de um outro para ouvir. 
As possibilidades e as potencialidades de Guilherme vão aparecendo quando ele cada vez mais vai ocupando o lugar de um sujeito ativo  que age diante do outro e do mundo. Guilherme começa a se posicionar através de movimentos de espelhamento das minhas ações (processo constitutivo do diálogo, chamado de processo dialógico de especularidade). E foi à partir desse processo que resultou suas primeiras emissões discursivas as primeiras palavras e ações comunicativas. Ele também já começa a retomar minhas ações e acrescentar novos elementos (processo dialógico de complementaridade) - que vem de sua relação com a família e com o berçário - o que vai traduzindo o desenvolvimento da linguagem do nosso garoto. 
A medida que suas ações/intenções comunicativas vão sendo interpretadas e ganham significado Guilherme começa a perceber que seu discurso tem efeito sobre o outro e pode ser composto de palavras e ações. Por esse viés, o mundo vai sendo apresentado a ele, que vai construindo e atribuindo os mesmos e novos sentidos. Dessa forma Gui começa a fazer uso da sua discursividade motora para brincar e para comunicar intenções, ações, contentamento e descontentamentos.
No trabalho com a tonicidade, que não pode ser descartado devido a necessidade de aumentar o tônus muscular das estruturas orofaciais e prepará-lo para que sua fala seja inteligível, os ganhos são reflexos do trabalho com as  massagens e manobras escolhidas conjuntamentente com os afetamentos dele  já que seu discurso em ações (quando ele me abraça para que eu não tope em seu rosto; ou quando ele senta em meu colo pelo mesmo motivo; ou ainda quando ele pega as minhas mãos e empurra para que eu bata uma com a outra para que eu desista das massagens) me sinaliza o que posso e o que não posso utilizar de jeito algum . As técnicas ativas já começam a ser pensadas e inseridas no plano terapêutico, já que Guilherme, pelo processo de especularidade processo de espelhamento das ações do outro  consegue realizar alguns exercícios para aumentar a tonicidade dos lábios e língua facilitando e melhorando o trabalho.
Finalizo lembrando e retomando os dois primeiros encontros com Guilherme e com seus pais: a entrevista inicial e o primeiro atendimentoNo primeiro, chegaram os três me apresentando uma história que faria parte da minha. Guilherme trazia a marca da síndrome de Down em seus olhos, seus pais traziam a sua história e a vontade/necessidade de um trabalho fonoaudiológico. Ao final do segundo eu refletia sobre a subjetividade e singularidade de cada sujeito e de cada família que, embora toda a história descrita por Murillo e Alynne, me aproximasse de Guilherme, nem essa descrição e nem a marca da síndrome de down chegariam perto de quem eu iria encontrar

Flávia Lôbo Alves
Fonoaudióloga  CRFa. 11015/SE



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