segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Quando meu filho nasceu...



15 de setembro de 2008: contrações na 37ª semana de gravidez. Ainda não era a minha hora, mas Heitor já se mostrava pronto para estrear nesse mundo e ele nasceu à noite. Quando dei à luz, não fiquei sabendo da Síndrome de Down na sala de parto. Só depois, na recuperação, é que recebi a notícia do meu então marido, pai de Heitor.


Não acreditei. Pedi que a enfermeira o trouxesse, examinei cada centímetro do corpinho dele e não enxerguei nenhum sinal clássico da SD. Pela manhã, bem cedinho, a enfermeira, que costuma levar aos quartos todos os recém-nascidos, não trouxe meu filho.
Fui até o berçário e, lá, a neonatologista disse:
“Já ia mesmo mandar te chamar. Preciso conversar com você”.
Esse foi o exato momento eu que senti uma pontada no meu coração e tive a certeza de que Heitor era, de fato, SD. Ela me sentou, explicou, falou, falou.... As palavras nem entraram na minha cabeça. Perguntei apenas:
“Cadê meu filho?” Travamos um diálogo tão estranho quanto revelador:

Ela: “Achamos que seu filho é mosaico.”
Eu: “O que é mosaico?”
Ela: “É uma variação da SD”
Eu: “Ah, é isso é? Pensei que fosse algo grave.”
Ela: “Você entendeu? Seu filho tem uma deficiência.”
Eu: “Entendi sim! Só não entendi por que até agora vocês não me trouxeram meu filho. Heitor é meu filho. Não importa a SD. Se viesse faltando um braço ou uma perna, eu o queria do mesmo jeito. Eu o amo do jeitinho que ele é.”

Depois, com o resultado do cariótipo, descobrimos que Heitor é SD padrão. Mas, naquele momento, eu já sabia que toda minha vida tomaria um rumo diferente. A minha e a da minha família. Pelo fato de ter uma prima com PC (Paralisia Cerebral), sabia que o caminho não seria fácil, mas também não seria tão feio. O começo é difícil. Contar aos amigos, aceitar, ter esperanças, se acostumar e viver. Depois de tudo, entendi que a vida segue, com altos e baixos como para todos.

O nascimento do meu filho representou uma reordenação das prioridades na minha vida. Quando entendi que a ordem estava errada e corrigi, ganhei força, coragem. Coloquei Deus em primeiro lugar, minha família em segundo e todo o resto depois. E tudo que era preto e branco ficou colorido. De verdade. Sem hipocrisia. Hoje, se pudesse voltar no tempo, queria que meu filho nascesse novamente, do mesmo jeito, exatamente como ele é.

Desde então, aprendi muito sobre “se doar”. Não tivemos, nem eu nem minha família, muitas explicações. Corremos atrás. Um dia, encontrei uma mãe “perdida”, sem saber o que fazer, nem a quem procurar. Sentei com ela, conversei por mais de uma hora. Quando cheguei em casa, disse a minha mãe: “Não posso ter o conhecimento das coisas e ficar só pra mim. Já passei por isso. Preciso ajudar quem não sabe o que fazer”. E aprendi que, quanto mais a gente estende a mão ao próximo, mais a gente aprende. Quanto mais a gente se doa, mais a gente recebe de volta.
Na convivência com meu filho, aprendi que nada, absolutamente nada, é obstáculo tão grande que a gente não possa ultrapassá-lo. Que sempre tem alguém com um fardo mais pesado que o nosso. Que podemos ser extremamente felizes com o que Deus nos entregou.

 Nada acontece por acaso. Deus tem um propósito para tudo em nossa vida. Mesmo que naquele instante a gente não entenda, o tempo vai mostrar que nada foi sem querer. Pessoas entram na sua vida, outras se aproximam, outras se afastam. Tudo é benção e livramento de Deus.
Vivi momentos tristes, infelizes e difíceis antes do nascimento de Heitor. Costumo dizer que Deus percebeu tudo isso, olhou para mim e disse: “Filha, você já sofreu demais. Chegou a hora de você ser feliz.” E então, me deu Heitor.

Eu já era muito ligada a minha família. Sempre tive valores familiares muito fortes. Depois do nascimento de Heitor, tudo só veio se fortalecer ainda mais. Minha família foi e é fundamental em tudo na minha vida, na vida de Heitor e de Bethina, minha primeira filha.

Eu já participava de trabalhos sociais, mas nada com muito afinco nem compromisso. Senti necessidade de fazer mais pelo próximo, pelas mães, principalmente. Foi assim que, devagarzinho, fui chegando na CIDOWN. Hoje, um ano depois, estar com essas mães, crianças, adolescentes, jovens e adultos com SD e suas famílias é uma das coisas
mais prazerosas na minha vida. Ver o olhar de tristeza e dúvida de uma mãe ir se dissipando, o franzir de sua testa se desfazendo, tudo aquilo que, no início era dor e sofrimento se transforma em alegria e esperança.

Sheila Christine de Souza (35), mãe de Heitor (quase 4) e de Bethina (5)

"Quem pensa diferente, faz diferente!"



e-mail de Sheila: sheila_2102@yahoo.com.br





3 comentários:

  1. Seu filho e LINDO!!! Também tenho um Heitor em casa... Parabéns pela força, fé e coragem... Abraços

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    1. Heitor é mesmo um lindão, adoramos poder publicar o Relato dessa mãe apaixonada pelo filho. Obrigado. Sheila sempre sera convidada para participar do Blog.

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  2. Paula - Tia/mãe de Heitor2 de dezembro de 2013 14:40

    Heitor é GOSTOSO demais!! è um prazer enorme te-lo no nosso convívio!! AMO demais!!

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